Francisco Capelo
14 de Fev de 20203 min
Alguém algum dia o disse: “O homem é o homem e as suas circunstâncias” - Creio que foi Ortega y Gasset.
Trump chegou ao poder por isso mesmo:
. por ser quem é, como pessoa, pleno de defeitos e algumas coisas positivas lá pelo meio de uma personalidade controversa;
. e também pelas circunstâncias, de uma América profunda sempre à procura de si mesma, da sua história de racismo, de grupos em eterno combate pela supremacia social, económica e política.
Referi aos meus amigos, antes de tal facto ser um facto, que:
. Obama vai ganhar a Hillary.
Ninguém apostaria nisso, chamaram-me de irrealista.
Mas quando o discurso do “Yes, we can” pegou fogo à grande pradaria constituída pelas mentes e almas do povo norte- americano, já toda a gente esperava o inevitável: a vitória de Obama.
Antes disso, uns TPC muito bem feitos, sobretudo no que às redes sociais diz respeito, por esta candidatura à presidência, um trabalho pioneiro em política.
Desta vez, fiz também uma previsão, que se revelou igualmente certeira:
. Trump vai muito provavelmente ganhar.
E realmente ganhou.
Contra tudo e contra todos:
. contra os mass media, que o criticam abertamente;
. contra o seu próprio partido, que ainda recusa rever-se na sua personagem explosiva e reconhecê-lo como um dos seus;
. contra as populações citadinas mais esclarecidas;
. contra as grandes empresas ligadas à tecnologia que precisam de importar mão de obra especializada que agora é barrada nos aeroportos;
. enfim, contra muita muita gente que quer vê-lo pelas costas o mais rapidamente possível.
E temos agora este triste e anunciado espectáculo de um líder - o mais importante líder, diga-se - que governa o mundo pelo Twitter !
Eu diria que há uma nova política ao ritmo a que Trump vai à casa de banho…
Alguém já disse também que uma certa América profunda, altamente racista, resolveu colar-se às mensagens contraditórias deste líder e apropriar-se de uma América que eles consideram apenas sua.
E o recente protesto da extrema direita em Charlottesville é incómoda para Trump, exactamente por isso: a mensagem fracturante destes radicais é igual à sua:
. devolver o país às pessoas certas, finalmente;
. deportar grande percentagem de imigrantes ilegais;
. renegociar os contratos com todos os países estrangeiros, desde contratos puramente comerciais à NATO;
. negar o fenómeno do aquecimento global e, com isso, destruir o consenso ambiental mundial e voltar a dar poder à indústria petrolífera, algo impensável num planeta que precisa de energias renováveis como um mendigo precisa de pão.
Mas… existem aspectos positivos em Trump, afinal de contas..?
Eu só vejo um: é um homem com uma abordagem directa aos problemas.
Mas mesmo esta aparente vantagem tem o seu gume: uma abordagem directa traz consigo muitas vezes uma solução simplista a problemas complexos.
E isso não é mau: é péssimo !
A grande frase de Trump para ganhar a eleição foi esta: “Devolver a América aos americanos”.
Mas… quem são estes misteriosos “americanos” ?
Serão:
. imigrantes como a família de Trump, ele que é a terceira geração dessa imigração ?
. imigrantes latino- americanos ?
. imigrantes judeus ?
. ou… as autênticas e primordiais comunidades índias cujos bisontes foram chacinados aos milhares e cujos líderes foram assassinados, com o objectivo de os confinar a reservas e renegar o seu direito à terra onde sempre estiveram e onde - eles sim - nasceram ?
E, com esta ideia da devolução da América aos americanos, estava subentendida outra ideia: que há uma crise económica profunda nos Estados Unidos da América.
Ora, Obama chegou ao poder quando havia essa crise – e, bem ou mal, em grande medida conseguiu resolvê-la !
Sai de cena sem qualquer escândalo - sexual, financeiro, político, de drogas - nada de nada. O que é raro naquelas circunstâncias, de uma sociedade que se move a escândalos e excessos e boatos. E deixando a tal América tão citada por Trump - bem melhor do que estava quando entrou pela primeira vez na Casa Branca.
Eu neste momento vejo uma outra crise mais evidente, que não a económica – a crise de valores, ou seja, cada grupo dentro dos EUA tem um conjunto de valores radicalmente diferente dos valores do grupo vizinho.
O grande problema é que Trump não está a resolvê-la; está, isso sim, a agravá-la…
Um fraco líder faz fraca a forte gente…